Primeiro dia do I Fórum de Geoparques Mundiais da UNESCO da CPLP reforça cooperação entre territórios e aposta no desenvolvimento sustentável

O território do Arouca Geopark acolheu, esta quinta-feira, na Biblioteca D. Domingos de Pinho Brandão, no Mosteiro de Arouca, o arranque do I Fórum de Geoparques Mundiais da UNESCO da CPLP. Esta iniciativa reuniu cerca de 120 participantes entre representantes institucionais, especialistas, académicos e gestores de territórios dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), num encontro marcado pela cooperação, sustentabilidade e valorização dos territórios.

A sessão de abertura destacou o papel dos Geoparques Mundiais da UNESCO enquanto instrumentos de desenvolvimento territorial, preservação do património e construção de comunidades mais resilientes.

A Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém, sublinhou que “apesar das distâncias geográficas existe um chão comum: a língua”, defendendo os geoparques como “redes de construção coletiva” capazes de “transformar território em desenvolvimento e conhecimento em ação”.

Também Leonor Picão, Diretora Coordenadora do Turismo de Portugal, destacou a importância estratégica destes projetos para o futuro do turismo, defendendo um modelo “regenerativo”, que “crie impacto positivo e acrescente valor aos territórios”. A responsável reforçou ainda o papel de Arouca enquanto exemplo de valorização do interior, afirmando que “não há turistas a mais em Portugal, mas sim turistas mal distribuídos”.

O Presidente da Rede Global de Geoparques, Artur Sá, destacou o papel transformador dos geoparques nas comunidades locais, afirmando que “o património só é força quando vira pertença” e que “quando o território descobre o valor da sua terra, uma comunidade descobre novas razões para acreditar em si própria”.

Já Manuel Lapão, em representação da CPLP, salientou que este fórum surge num momento simbólico para a comunidade lusófona, que celebra 30 anos, reforçando a ambição de afirmar a Rede de Geoparques da CPLP como “uma plataforma aberta” de cooperação entre países.

Kristof Vandenberghe, representante da UNESCO, alertou para os desafios globais relacionados com as alterações climáticas e perda de biodiversidade, defendendo que “um bom conhecimento dos nossos territórios é a melhor saída para a prosperidade”. Destacou ainda o papel da UNESCO na criação de plataformas de ligação entre territórios e no fortalecimento dos geoparques a nível internacional.

A sessão plenária da manhã foi dedicada às oportunidades para a criação e fortalecimento de Geoparques Mundiais da UNESCO nos países da CPLP. Teresa Ferreira e Fabiana de Melo Oliveira apresentaram a estratégia da Rede de Geoparques da CPLP, assente num modelo de mentoria entre geoparques portugueses e brasileiros e os países que ainda não possuem geoparques reconhecidos pela UNESCO.

Segundo Teresa Ferreira, o objetivo passa por desenvolver “um trabalho de proximidade”, respeitando as especificidades de cada território e promovendo uma construção conjunta dos processos de candidatura.

Fabiana de Melo Oliveira destacou a experiência brasileira, defendendo os geoparques como “espaços vivos de desenvolvimento”, onde ciência, educação, cultura, turismo e participação social caminham em conjunto. Durante a sessão foi ainda apresentado o novo “Manual de Desenvolvimento de Projetos Turísticos de Geoparques no Brasil”, orientado para o turismo sustentável.

Seguiu-se um debate moderado por Pedro Martins, jornalista da RTP, que colocou diversas questões pertinentes. Neste debate, os vários intervenientes reforçaram a importância da cooperação entre os países africanos de língua oficial portuguesa, da academia e das comunidades locais na criação de futuros geoparques.

Artur Sá mostrou-se confiante no crescimento da rede, afirmando que “dentro de quatro anos estaremos a falar de muitos mais geoparques no espaço da CPLP”, enquanto Kristof Vandenberghe considerou que o surgimento de geoparques em África “é uma questão de tempo”, defendendo um trabalho de base assente na cooperação e no envolvimento das estruturas locais.

Durante a tarde, o Fórum prosseguiu com o painel “Património Geológico e Conservação em Geoparques”, moderado por Maria Helena Henriques, da Universidade de Coimbra, onde se debateu o papel da geoconservação enquanto instrumento de desenvolvimento sustentável e valorização territorial.

Os intervenientes destacaram os desafios enfrentados pelos países africanos na área da geoconservação, defendendo a necessidade de reforçar programas científicos e de formação especializada através da CPLP, promovendo bolsas e capacitação de estudantes oriundos desses territórios. Foi igualmente sublinhado que as disparidades entre África e outros continentes nesta área estão intimamente ligadas a questões de desenvolvimento humano, tornando essencial a articulação entre setores políticos, educativos, científicos, de gestão e comunicação.

Thiago Marinho, Coordenador Científico do Uberaba Geoparque Mundial da UNESCO (Brasil), apresentou o tema “Património Geológico do Triângulo Mineiro: desafios e oportunidades de conservação em Geoparques”, destacando a importância da integração cultural no desenvolvimento territorial e valorizando os elementos identitários que marcam o território de Uberaba.

Já Salomé Menezes, Coordenadora Científica do Açores Geoparque Mundial da UNESCO, apresentou a estratégia de inventariação, monitorização e gestão do património geológico em ambientes insulares, destacando o trabalho desenvolvido nas nove ilhas açorianas desde os primeiros estudos iniciados entre 2006 e 2008. A responsável reforçou que “não há fórmulas ideais” e que cada geoparque deve adaptar a sua estratégia às especificidades do território, tendo como pilares a geoconservação, geoeducação e desenvolvimento sustentável.

Álvaro Machado apresentou ainda metodologias de inventário, avaliação e monitorização do património geológico aplicadas no Caçapava Geoparque Mundial da UNESCO, concluindo que “o património geológico somente é preservado quando a comunidade reconhece o seu valor”.

O debate que encerrou o painel abordou a relação entre geoparques, comunidades e património geológico, refletindo sobre a importância da presença humana e da valorização dos geossítios enquanto espaços de conhecimento, utilização científica, educativa e turística.

O programa da tarde integrou ainda um segundo painel dedicado ao papel das entidades intermunicipais e da governança participativa no desenvolvimento dos territórios geoparque, cuja introdução esteve a cargo do moderador João Carlos Pinho, da ADRIMAG – Associação de Desenvolvimento Rural Integrado das Serras de Montemuro, Arada e Gralheira.

Paulo Simões apresentou a experiência do Oeste Geoparque Mundial da UNESCO (Portugal), destacando o papel das entidades intermunicipais na valorização territorial. Janaina Luciana de Medeiros deu a conhecer as estratégias de desenvolvimento integrado implementadas no Seridó Geoparque Mundial da UNESCO (Brasil), enquanto Jucemara Rossato, Coordenadora Executiva do Quarta Colônia Geoparque Mundial da UNESCO e Prefeita de Nova Palma, abordou os geoparques como “laboratórios de governança participativa”, reforçando a importância do envolvimento das comunidades locais em todas as etapas do processo de desenvolvimento territorial.

Ao longo do primeiro dia, ficou evidente a visão comum dos participantes: os Geoparques Mundiais da UNESCO afirmam-se como plataformas de cooperação, desenvolvimento sustentável, valorização do património e fortalecimento das comunidades, reforçando os laços entre os territórios da CPLP unidos pela língua portuguesa.

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